A Irmandade da Adaga Negra, de J. R. Ward

Imagem: pixabay

A rainha do fantasia romântica-trash: J.R. Ward.

A série “Irmandade da Adaga Negra”, de J. R. Ward, é mais uma série de vampiros, mas não apenas mais uma série do gênero.

Visite o site oficial de “Irmandade da Adaga Negra”.

A série é O conto de fadas do imaginário contemporâneo:

  • Os vampiros e as vampiras são naturalmente depilados.
  • Todos os vampiros e vampiras possuem barriga negativa e zero gordura, mas isso sem o menor esforço. Basta uma cota saudável de sangue para que eles e elas se tornem modelos de roupa de baixo.
  • Esqueca o tralalá todo do mundo da conquista. Olhou, gostou, pegou. Sem preliminares. E tudo consentido. Graças ao poder dos feromônios.
  • Os machos podem ficar tranqüilos: basta ele marcar sua fêmea com seu cheiro para espantar a concorrência.
  • Aliás, nem isso é realmente necessário. A fêmea fica de qualquer forma enclausurada esperando o macho voltar do trabalho.
  • Criaturas fantásticas imunes à doenças sexualmente transmíssiveis não são novidade. Mas aqui você pode curtir seu wakawaka mais do que despreocupado, já que o período fértil das vampiras ocorre a cada 10 anos, durando mais ou menos umas 12 horas. Quando fértil a fêmea sofre dores insuportáveis de… tesão. Mas se o macho não quiser fertilizá-la, não tem problema. Morfina resolve.
  • Os “doggens” – o título é mais do que sugestivo. Mordomo / escravo cuja natureza é… servir. Cozinhar, arrumar a sua casa, limpar a sua privada e muito mais. E ai daqueles que tentem roubar suas tarefas, eles ficam ofendidíssimos! Nada de direitos trabalhistas ou ressentimentos, aqui estamos falando de fidelidade e servidão absolutas.
  • Imagine você poder falar com Deus. Literalmente. Pois é, aqui é assim. Perdeu uma pessoa amada? Marcar uma visita com a deusa dos vampiros que ela dá um jeitinho!
  • Todos podem viver mil anos com cara de 25.
  • Fonte infinita de dinheiro, sem saber de onde.

Sabe aquela amiga maluquinha que consegue transformar uma ida à padaria no evento do ano? Essa é J.R. Ward. A criatividade dela em “Irmandade da Adaga Negra” é infinita. Uma excelente contadora de histórias, não importando o conteúdo. Ela consegue escrever mais de 10 livros contando exatamente a mesma história, e mesmo assim cada um deles é empolgante (com algumas exceções) e singular. Os personagens são carismáticos, divertidos, e com o decorrer dos livros o leitor acaba se sentindo parte da Irmandade. Além disso, Ward não tem medo de ser escrachada. Muitos diálogos são deliciosamente irreverentes, e a narrativa esdrúxula é justamente o que torna a série tão simpática. Mas a dádiva também é carma: Ward não consegue fazer diferente, e muitas vezes a fórmula não funciona – alguns livros de “Irmandade da Adaga Negra” provam. Em “Fallen Angels”, por exemplo, Ward investe mais uma vez no estilo, mas o tiro sai pela culatra. A série parece uma caricatura de “Irmandade da Adaga Negra”. E os livros “normais” que ela escreve como Jessica Bird são ainda piores, porque não há sequer o teor fantástico para amenizar.

Mas enfim, voltando a Irmandade. O método é conhecido: uma série com um enredo contínuo, mas cada um dos livros foca em um personagem diferente. Em “Irmandade da Adaga Negra” o enredo continuo é a guerra entre vampiros e Lessers. Embora a guerra seja a razão da existência da Irmandade, é retratada em segundo plano.

A “criação” dos vampiros pela Virgem Escriba, a força do bem, gerou um contrapeso na natureza: os Lessers, criados por Omega, a força do mal. Os Lessers são mortos vivos fedorentos, tão resistente fisicamente quanto os vampiros, mas sem alma. São os “predadores naturais” dos vampiros, criados em massa para matarem o maior número possível de vampiros. Os vampiros, por sua vez, precisam se defender, e a Irmandade são os Guerreiros da sociedade vampiresca, responsáveis por caçar e matar os Lessers. Mas, como já mencionei, a guerra é somente o fio condutor entre os livros, já que estes focam na história pessoal do respectivo vampiro protagonista, que sempre se apaixona perdiamente por alguém… Além disso, os livros são escritos de maneira a possibilitar a compreensão do enredo mesmo quando se trata de uma leitura isolada, desvinculada à ordem da série.

Cada membro da Irmandade, bem como sua respectiva fêmea, é único e complexo. E Ward sabe como introduzir novos integrantes ao exclusivo círculo da Irmandade, tão interessantes como os membros do núcleo inicial. O que é necessário, já que a série ao todo é composta, pelo menos até agora, por 12 livros.

Falando das fêmeas. Embora “Deus” aqui seja mulher, a estrutura do universo de Ward é claramente patriarcal. Mesmo que a autora tente criar pseudo-polêmicas sobre libertação feminina, entre outros temas, é tudo muito superficial e falta ousadia. Aliás, as próprias raízes da natureza vampiresca são patriarcais (basta observar o comportamentos possessivo dos machos), o que, por si só, impede uma redinamização dos papéis de gênero. Xhex e Payne são a únicas representantes “revolucionárias”, mas Xhex é retratada com um tom meio “chata resmungona”, e Payne como uma retardada. Se é proposital ou não, não sei.

Mas o que eu acho bacana nesse mundo vampiresco é o fato de os vampiros não serem criaturas do mal, demoníacas, alienígenas ou qualquer outra coisa do tipo. Eles são apenas uma outra espécie, uma “mutação” dos humanos.  Isso os torna extraordinariamente tangíveis, o que reforça o sentimento de proximidade. Imagina um vampiro ser um vizinho ou experimentado roupa de marca na cabine ao lado?

A “Irmandade da Adaga Negra” é uma série que, para quem consegue se acostumar com o estilo, muito prazerosa. Os “Irmãos” são todos gostosérrimos, bons de cama, durões (trocadilho besta… hehehe), e muito legais! Alguns lances são completamente sem sentido, alguns fechamentos absurdos, e o senso de continuidade deixa muitas vezes a desejar. Mas, como um todo, entretém muito. Só uma pequena observação, no começo a Ward tentou, digamos assim, ampliar o seu público, criando vampiros fãs de hip-hop e rap. O conflito cognitivo despertado por essa associação causa convulsões, eu sei… mas ao longo da série Ward percebeu que a coisa não funciona e deixa quieto. Mas essa é a mágica da leitura. Cada um é seu próprio diretor, cria sua própria soundtrack, escolhe seus próprios atores, define o ritmo desejado, apara pontas indesejadas, possibilitando uma expêriencia absolutamente única, em todos os sentidos, sem formas, sem regras!

Livros da série:

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