Como con-viver com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade?

Imagem: pixabay.

O tema  “Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade – TDAH” me interessa por ser uma das doenças mais “badaladas” da atualidade. Sou leiga, meus conhecimentos se resumem ao discurso comum ao qual todos têm acesso – revistas de educação, internet, livros sobre o tema, e não é baseado em estudos profundos de pesquisas científicas. Mesmo assim, gostaria de fazer algumas considerações sobre o tema.

Entenda o TDAH.

A ciência afirma que TDAH é uma doença comprovada, uma disfunção neurobiológica que impede os estímulos externos de serem suficientemente filtrados, ou seja, a pessoa ficaria “sobrecarregada”  e as regiões cerebrais responsáveis pelo controle do comportamento seriam afetadas. Outros ramos, como a linha antroposófica ou a psicologia, entendem o TDAH como um problema da sociedade, que endoece todos os que não de adequam às normas sociais vigentes.

Como se manifesta o TDAH? Os sintomas surgem tradicionalmente na infância, principalmente com o início da vida escolar. São as “crianças-problema”: as que não ficam quietas, agressivas, desatentas, impulsivas. Adolescentes estariam mais propensos à comportamentos rebeldes, à criminalidade, ou até mesmo dependência química, pela expressiva falta de controle e de limites.

Certamente existem alterações cerebrais comprovadas das manifestações do TDAH. Mas o nosso cérebro não é flexível, passível de se adaptar e/ou reagir aos estímulos oferecidos? Também fala-se do caráter hereditário da doença. Mas não se sabe que os filhos se espelham no comportamento parental, e que a dinâmica familiar estabelecida é reproduzida por todos os membros? TDAH é uma doença que afeta mais os meninos. Mas não é verdade que mesmo nos dias atuais a educação ainda reproduz os papéis tradicionais de gênero, em que meninos jogam bola enquanto meninas brincam de casinha?

Claro, colocar o comportamento “endiabrado” na gaveta da medicina facilita o lidar com o problema. A responsabilidade sai dos ombros dos membros da família afetada, sendo transferida para uma instituição neutra, fora do alcance de influência – afinal, médicos e especialistas sabem o que fazem, enquanto nós somos meros leigos. A bola é repassada para os terapeutas e para a farmacologia. Nem vou entrar na questão da Ritalina em si, o produtor de “crianças-zumbis”.

Entenda o que é a Ritalina e seus efeitos.

Ao mesmo tempo, sabe-se que os sintomas provocam sofrimento. A inadequação no meio escolar e social que isola, o “mau” comportamento que incomoda e acaba provocando rejeição mesmo no meio familiar, a crise de auto-estima por ser o “estranho”. Portanto, não seria negligência ignorar esse sofrimento, apenas para seguir uma linha anti-medicamentosa que corresponderia à filosofia dos pais do respeito à individualidade?

Aliás, o que é ser uma criança “diferente”? O que é ser “normal”? Essas perguntas sempre me remetem à minha infância nos anos 80. Não é tão longe assim, mas ao mesmo tempo parece ser uma outra era. Me lembro que o “capetinha” da classe era tido como legal, ousado e rebelde. Além disso, na minha época as crianças passavam o dia na rua, brincavam no pátio do prédio, estavam sempre nas casas umas das outras. Não havia tanta neurose de violência x segurança, nem tanto controle, nem tantas regras. Antes as crianças andavam de carro sem cinto, compravam cigarros para os pais – e iam e voltavam sozinhas -, não tinha tanta paranóia de que o pai do coleguinha poderia ser um tarado. Por outro lado, todos esses fatores concretamente justificam a nova geração de crianças enjauladas.  Ou estaríamos vivendo uma cultura do medo? Crianças que passam o dia em casa precisam de entretenimento: televisão, video-games, filmes, brinquedos (na minha época só tinha Atari e desenho só da parte da manhã). E esse entretenimento precisa ser comprado. E é caro.

Além disso, as crianças ficavam acordadas até meia noite em dia de festa, dormiam debaixo da mesa enquanto os pais se embriagavam, assistiam novela das 8 (que começa às 9 da noite) com os pais, e não tinha tanto essa de horários super controlados, rotina extremamente regrada, alimentacão saudável e doces só no final de semana (combate à obesidade) etc etc etc, a infância era flexível. Hoje temos quase uma militaritação da infância, a cada mês lemos inúmeras  edições de revistas para pais que pregam quase religiosamente a importância da rotina e de uma vida regrada para o bom desenvolvimento das crianças. Obviamente todos os pais querem o melhor para seus filhos, e na onda da supervalorização da infância, as regras, os métodos, terapias e cursos para aprendermos a colocar a criança no centro do mundo, são incontáveis. Mas claro, conhecemos muito bem o teor nocivo da cultura fast-food e da falta de limites, bem como a importância das medidas de segurança, e queremos maximizar a qualidade da educação. Onde está a fronteira?

Outro ponto:  percebo que os “diferentes” são, ironicamente, quando bem embalados, admirados e cultuados. São os artistas maluquinhos, os escritores criativos, os músicos revolucionários, a infância que inspira pela capacidade de admiração, pela imaculação e inocência diante da podridão da sociedade e suas normas. Ícones quando inatingíveis, problemáticos quando parte do cotidiano. Qual é a regra entre o “diferente-problema” e o “diferente-cult”? A distância segura, a intangibilidade?

Outra questão com a qual eu me ocupo é a nossa noção atual de tempo. Sim, o tempo mudou. Está mais rápido, mais curto. A internet mudou a interpretação do tempo. Hoje não precisamos mais ir à Biblioteca para pesquisar algo, basta digitar um termo de busca no Google – o que antes levava um dia inteiro hoje dura 2 minutos. Antes levava-se um dia inteiro para procurar e comprar um aparelho novo, hoje é possível fazer isso em meia hora pela internet. E na época de nossos avós, que lavavam roupa com as próprias mãos, não tinha televisão, e nem todas as modernices de hoje? E na época dos avós dos avós dos avós, em que calor era produzido pelo fogo e tudo era feito à mão? Etc etc etc…  Hoje é tudo muito disponível e imediato: música, filmes, livros, fotos, informação, produtos… a pressão para que se saiba de tudo, para que se tenha tudo – em 1 minuto. Ou seja, lê-se todas as manchetes de jornais, mas nenhum artigo. Sabe-se mais ou menos tudo o que acontece, mas nada é realmente confrontado ou discutido. Ouve-se todas as músicas, assiste-se todos os filmes, conhece-se todas as pessoas, mas não se aprecia nada, não se aprofunda nada, porque a lista de novidades não pára de crescer. Vivemos num mar praticamente infinito de informações, e ao mesmo tempo estamos mais superficiais do que nunca.

Como preencher o vazio por trás dessa bolha? Se o mundo é quase mágico e tudo é oferecido mastigado e pré-digerido, para onde canalizar a capacidade creativa, pensante e questionadora da qual todos os humanos são naturalmente dotados? Como preencher a ociosidade inerente à isenção do esforço? Com excesso de atividades? Aulas de informática no maternal, escolas “multi-língues” e mais um milhão de outras coisas? Mas o que fazer com o excesso de informações se não há vivência? Qual é o valor que as crianças aprendem nesse mundo? Como entrar em contato com o corpo que, desde o nascimento, é maquiado com cremes, perfumes e loções desnecessárias, e poupado de descobrir seus limites pela falta de movimento, de contato com o mundo real? Como enraizar se não há contato com a natureza, com o chão, com a terra? Como absorver e sentir o mundo, se o mundo deixou de ser palpável?

Como se relacionar com o outro nesse mundo, sem toque, sem o olhar no olho, sem o matar o tempo juntos? Como estar disponível para o outro, quando ao mesmo tempo é preciso ser “inteligente” (vide parágrafos anteriores), sarado, bem cuidado, e ter dinheiro (e dinheiro não cai do céu)? Não sabemos que a agressividade infantil está diretamente relacionada com a (falte de) Atenção? E se sabemos que empatia é a capacidade de sentir e se colocar no lugar do outro, como aprendemos a desenvolver isso se o contato é insuficiente? Não é isso que falta às pessoas com TDAH: atenção, reflexão e canalização “saudável” da energia?

Como se pode ver, não tenho resposta nenhuma, apenas perguntas. Talvez a solução seja, cada um em seu contexto, ver o que é melhor para si, e procurar descobrir ao que se está disposto a abrir mão. Não consigo encontrar um meio termo para o paradoxo da supervaloriação da infância x falta de contato, nem cogitar uma resposta que englobe toda a pluralidade de fatores envolvidos na manifestação do TDAH. Alguém tem alguma resposta?

 

Edit:

Assista aqui a um belíssimo vídeo que tematiza as rotulações psiquiátricas.

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